"O júri de hoje traz para a existência do júri tudo aquilo que nós imaginamos que o júri pode ser. Os senhores vieram aqui com um notável senso de cidadania. Ficaram isolados e não tiveram contato com o mundo externo. Não há uma única pessoa que não esteja acompanhando e admirando cada um dos senhores e senhoras. Muitos queriam aqui estar. Nós não ensinamos aos nossos filhos que eles sejam ladrões. Nós agradecemos muito, demais, aos jurados.
Nossa historia de hoje vem romper o nosso equilíbrio, nossa normalidade de vida. Vamos imaginar duas famílias trabalhadoras. De um lado, um engenheiro e uma médica psiquiatra. Do outro lado, um funcionário público e sua esposa cuidando de seus filhos. Quem criou esses filhos, os criou com todo zelo. É o mínimo que se espera dos pais.
Vamos imaginar que houve obstáculos. Mas como é emocionante ver o filho crescer, as primeiras letras, os primeiros passos. Observar essas crianças se transformando em gente. Vamos imaginar que essas famílias deram tudo a elas, e não dinheiro, é o dar educação, dedicar. Quem tem filho, quem escolhe ter filhos, faz opção em ter alguém para amar, para se transcender, para se projetar. Essa é a família. Essa é por quem eu dou a vida mil vezes se tiver que dar. Como nós nos orgulhamos de ter filhos. Quem já não teve um filho, que disse que morria de amor?
[Suzane e Cravinhos são colocados de frente para os jurados, mas em um local mais distante. A intenção é que os jurados vejam os réus. No entanto, Suzane não quer ficar perto dos irmãos]
[Tardelli prossegue]
Porque nós nos apaixonamos é que temos os nossos filhos. E é por isso que sonhamos, e sonhar ninguém pode roubar da gente. Até que alguém de uma família, conhece alguém de outra família. Sé que esses alguéns, não são alguéns comuns. Essas duas crianças começam a se apaixonar. E quem nunca viu o filho morrer de amores
[Pede aos jurados que façam uma reflexão]
Nós sempre somos bem recebidos na casa dos nossos namorados? O que há de anormal em isso não acontecer? Não, é preciso uma coisa a mais, eu quero teu dinheiro, quero teu suor, quero teu trabalho. Eu quero isso porque é meu, não é seu. E se você não me der, eu te elimino do meu caminho. Pouco importa que nós não sabemos da intimidade desse casal, quem perdeu a virgindade com quem.
Houve um momento em que essa relação sufocou as famílias, a família Richthofen tentou terminar o namoro. A família Cravinhos tentou trazer o casal para dentro de casa e assim tentar fazer alguma coisa. Ambas sabiam que o relacionamento estava intenso demais. Chegou um momento em que essa relação incomodou demais as famílias. Nos momentos familiares, comer em família, sair em família.
Os vizinhos, amigos, ninguém percebeu. Certamente um fazia tudo pelo outro. Pararam de fazer coisas um pelo outro. Academia, pagar contas, matar aula. O casal era tão regulado, desconfiado, que a filha contava mentira. O tipo de mentira padrão.
E esse casal percebeu que devia dar um passo à frente. Eliminar o casal Richthofen. E esse é um tipo de segredo que não se compartilha. Tudo foi macabramente planejado. Como eu posso imaginar que esse rapaz e essa moça se fecham no quarto e dão um tiro para ver o barulho que vai fazer. Como percebemos que nossos filhos planejavam o mais macabro, o mais grave dos crimes de que se tem notícia?
Porque eles se completavam, eles se seguravam perfeitamente. As coisas estão sob o nosso controle. As ações dessa empresa, Cravinhos e Richthofen, correspondem a cotas iguais. Foi o casamento perfeito, o cérebro e a coragem. Oh, ela me dizia que era violentada pelos pais. Ora, ela vivia com os pais, passeava com os pais. E ela disse que não estava namorando mais. A família Richthofen sai soltando rojão. E não foi porque os Cravinhos eram pobres.
Até que ele fabrica a arma. E se alguém os visse fazendo isso, imaginaria o que estava acontecendo? Nunca. Só que o menino precisava ser retirado da casa [Andreas]. E o horário da lan house é o melhor. ‘Mas, cuidado, se você acordar o papai e a mamãe, eles não vão deixar você ir’. E ele não os acorda. E aí começa a maior seqüência de destruição e morte que eu presenciei em 22 anos de carreira.
‘Eu estava drogado, mas eu dirigia o carro. Eu não sabia o que iria acontecer, mas o Cristian foi com uma malinha, com uma muda de roupa, para o cibercafé’. Ele [Cristian] disse: ‘Eu fui covarde por não ter segurado meu irmão’. Mas ele não disse que não foi covarde para dar a paulada. Estava cheio de coragem para dinamitar a cabeça da Marísia. Ele foi irmão para dizimar o casal. Ele diz: ‘Olha, eu comprei a moto para aplicar o dinheiro pra Suzane’. As pessoas têm um senso de humor...
No percurso, eles tiveram milhões de chances de não fazer. Cumprimentaram o guarda da rua, que também não percebeu nada. A filha doce, que a gente idealiza, vai ao quarto, percebe que os pais estão dormindo, chama os executores. Tudo isso é feito aos sussurros. O barulho deve ter sido ensurdecedor. Aquela toalha deve ter sido enfiada com uma brutalidade, ela [Marísia] se sentiu morrendo. Ela sofreu um golpe na mão. Ela pensou: ‘O quê que eu fiz? Alguém esta me matando, por quê?’
Eles tiveram o tempo de pensar em luvas cirúrgicas, em meia calça. Eles bagunçam a biblioteca. O Cristian acabou de matar uma mulher, um homem, e consegue ir a um hospital. Os dois, gastam R$ 300 numa suíte do motel Colonial. Eles continuam a vida. Jogam a culpa sobre a empregada doméstica.
E vamos protagonizar cena erótica lá no DHPP, quase um filme pornô, na porta da delegacia. Mentira que estavam transtornados! Gente impiedosa!
Nesse ínterim, a vida vai seguindo. Ele [Cristian] compra uma moto. Apavorado, ele passa o fim-de-semana na chácara do pai da namorada. Conta tudo pra ela, e participa do churrascão. Daniel, Suzane, chegam a sair com a amiga do casal para comer pizza. Que arrependimento é esse? São iguais, são sócios. O que aconteceu? Quando descobriram a mentira, jogaram um a culpa no outro, a sociedade se rompeu. Mas são dois jovens que mataram sem chance. E se uniram por ganância, que é um defeito da alma humana.
[Tardelli mostra os sacos de lixo e mostra como eles colocaram na cabeça da Marísia. Mostra a pasta que eles rasgaram com a faca, a precisão do corte]
Tão desesperados, e olha o corte como é feito!
[Ele mostra a cada um dos jurados]
Ele era habilidoso, aeromodelista, mão firme, gesto preciso. Fez com talento. ‘Eu estou tão transtornado que eu peço a única nota fiscal já expedida pelo motel em toda sua história!’ Que transtorno é esse?
No dia seguinte, eles voltaram à casa atrás de dinheiro!
Só negando completamente a realidade nós podemos afirmar que um tenha dominado o outro. São tão desesperadamente arrependidos que estavam tomando sol na piscina. A irmã chega para o irmãozinho, cuja herança ela renuncia apenas quatro anos depois do crime! Eles são tão arrependidos que tiveram que ser ouvidos três vezes para confessar! Eu quero ver alguém localizar uma garrafa de bebida alcoólica na casa no dia do crime. É o primeiro casal alcoólatra que não tinha bebida em casa.
Mas eu preciso encontrar uma razão para justificar o caso. Eu preciso dizer que o casal era um abusador sexual. Uma infâmia contra quem aqui não está para se defender. Além de fazer aquilo, ainda conseguem difamar o casal que morreu. O sangue não foi o bastante, eu preciso mais.
Pediu a metade do seguro, eu quero contar todos os bens da casa, da minha casa, mas eu não tenho interesse no dinheiro. É um inventário que se arrasta há quatro anos. Mas eu não quero dinheiro. Pede para ser nomeada inventariante, para administrar os bens, mas eu não tenho interesse pelos bens. E, por fim de tudo, eu peço a metade do seguro do pai que eu matei.
A amoralidade é tamanha que me soa ofensivo dizer que a ficha caiu. Oh, mas era o Daniel no céu, e Deus na Terra. Estamos falando de uma moça que falava três idiomas, que tinha uma vida social intensa. E a maconha... por favor, menos!
Ele via um espírito, negão. Nadir do céu! [Refere-se ao outro promotor, Nadir de Campos Jr., que é negro] Eu não gosto de mexer do outro lado lá da cerca, mas ele apareceu agora, e a gente nem combinou! [Nadir havia saído do plenário e voltou em seguida]. E eu estava falando do espírito na hora que o senhor apareceu, dr. Nadir [A platéia gargalha]. E esse espírito era um traficante da favela. E a amiga de Suzane deu um depoimento absolutamente leal a ela.
Dinheiro e sexo foram suficientes, mais que suficientes. Porque ela não saiu de casa para sobreviver? Eu não preciso fazer isso, não preciso lutar para sobreviver. Família para a Suzane tem prazo de validade. A dela, eles eliminaram. Ela também eliminou simbolicamente a família Cravinhos! E só foi simbolicamente porque ela está presa! Ela os matou aqui friamente, perante todos nós.
Andreas - o menino tímido, educado e caseiro que perdeu os pais e a irmã, pois para ele toda a família morreu naquele Outubro. Essa Suzane, que matou os pais e quer a herança ele não reconhece mais. Sua melhor amiga "Suzy", acabou com a vida dele e continuou o aterrorizando - inúmeras ligações, cartas, cartazes, visitas a casa dele e fotos com a vovó enquanto ele estava em aula e o titio trabalhando. Casa dele? Desculpe! Andreas mora de favor com a avó e o tio. Ainda não recebeu a herança que a irmã tanto quer. Sem contar que em liberdade "Suzy" o perseguiu várias vezes, enquanto o garoto fazia aulas de direção. E se ela for absolvida? Quem pode dizer que não há nenhum perigo para o Andreas? Quem?
De repente, acontece um tsunami processual. Acordo num pesadelo e vejo Suzane solta. Quando eu vejo aquilo, penso que o mundo está começando a girar ao contrário. Ela foi à praia, passeou, tomou sol! Ela estava de férias da cadeia, caminhou placidamente na praia, mas muito arrependida...Mas na praia, pulando ondinha!
Poucos meses depois, os Cravinhos também são soltos e dão uma entrevista na rádio Jovem Pan. É a voz de quem perdeu a vida em razão daquilo? E o que me deixa assim é a voz doce com que todos contam as suas atrocidades. Voz mansa, pausada, quase beata! Eu não sabia direito o que fazer, e arrebentei aquele casal!
Daniel fez por amor. Não! Fez pelo dinheiro, pela vida boa! Ele precisava, tanto que fez. O Cristian fez por dinheiro. Dinheiro! Dinheiro fácil que ele comprou a moto no dia seguinte. São três pessoas imediatistas, que não conseguem enxergar o dia de amanhã. Senão, saberiam que estariam aqui.
E uma aberração que é a pior que eu já vi. Nós vimos as fotos do casal, como eles ficaram, a reconstituição. São fotos horripilantes.
E a acusada, em voz mansa, nos disse que estudou o processo. Ela viu essas fotos! Ela procurou brecha no processo da qual ela é a protagonista! Nunca se disse isso nesse tribunal! Como alguém se diz arrependido, vendo essas fotos? Não que alguém tenha obrigado a ver, mas que quis estudar o processo. Eu sou mais inteligente que todo mundo, vou encontrar brechas que meus advogados não viram.
Eu vou estudar isso como se eu estivesse estudando isso [mostra o Código de Processo Penal]. Como pode se atrever a dizer isso? Perguntem a quantos advogados criminalistas quiser, quantos acusados olharam as fotos do que fizeram. Agora eu quero renunciar à herança, que comovente!
Agora eu vou fazer uma pausa, e vamos voltar aos sonhos dos nossos filhos. Mas eu garanto que esse casal nunca imaginaria estar aqui assistindo essa cena. Nós temos que separá-los. Seu Astrogildo e Nadja Cravinhos são pessoas da mais alta dignidade. E conta vantagem, e quem não conta? Pelo menos do time de coração, nenhum problema. Ora, mas ela era a galinha dos ovos de ouro? Um escrivão de anos de serviço não precisa disso. Ela pagava coisas, prestação do carro pro Daniel. Quem nunca deu um presente pro namorado? Quem não dá um presente maluco para a namorada? Todos nós. O diabo é que o namoro sempre acaba antes do cartão de crédito.
Quem viu a reconstituição, percebeu que os porretes estavam escondidos debaixo do carpete do porta malas. Foram com malinha para o cibercafé, foi pra casa, esperou a ligação, esperou a senha. Vai ao local, recebe um policial, porque está desesperado. Ele desconfia da frieza dela. Fedelha assassina!
Se os pais desconfiassem de alguma coisa, teriam fechado a porta do quarto. Como eles, o sonho do filho andava bem. Um casal executou um crime bárbaro, a eles se juntou Cristian, porque eram dois que precisavam morrer.
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terça-feira, 13 de maio de 2014
Fala do promotor Roberto Tardelli no último dia de julgamento
sábado, 3 de maio de 2014
Solidão
"O homem se torna autêntico quando aceita a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando interpreta a solidão como abandono, como uma espécie de desconsideração de Deus ou da vida em relação a ele. Com isso abre mão de sua própria existência, tornando-se um estranho para si mesmo, colocando-se a serviço dos outros e diluindo-se no impessoal. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história.
O ser autêntico é aquele que responde pela sua vida, o ator principal, o arquiteto de sua própria obra-prima, de sua vida.
Ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são como ficar sozinho: ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo."
O ser autêntico é aquele que responde pela sua vida, o ator principal, o arquiteto de sua própria obra-prima, de sua vida.
Ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são como ficar sozinho: ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo."
- Heidegger
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