quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O que um menino sabia sobre amor, sofrimento e cura?

''Vovô não foi embora''
Um dia Sam, meu filho de 4 anos, contou-me que vira a babá chorando porque tinha rompido com o namorado.
- Ela estava triste - Explicou ele. - Eu nunca fiquei triste - acrescentou.
- Nunca mesmo.
Era verdade. A vida de Sam era feliz - em grande parte por causa de seu relacionamento com meu pai.
Como Sam contava a todos, Vô Hood era mais do que um avô para ele - era um companheiro.
Há uma cena do filme Anne of Green Gables em que Anne exprime em voz alta o desejo de ter um amigo do peito. Assistindo à cena certo dia, Sam disse:
- Como eu e o Vô: amigos do peito para sempre.
Meu pai descrevia essa relação do mesmo modo. Quando eu ia dar aulas à noite fora da cidade, uma vez por semana, era o Vô que buscava Sam no colégio com sua caminhonete vermelha e o levava para a casa dele, onde brincavam de piratas e cavaleiros e Robin Hood.
Eles até se vestiam do mesmo jeito: camiseta com bolso, boné de beisebol e jeans. Tinham seus restaurantes preferidos, parques que sempre frequentavam e lojas de brinquedos em que papai deixava Sam brincar pelos corredores em carros motorizados.
Sam sabia de cor o número do telefone de meu pai e lhe telefonava todos os dias, de manhã e à noite. ''Vô'', perguntava, agarrando o fone, ''posso ligar para você mais cem vezes?'' Papai sempre respondia que sim e atendia o telefone todas as vezes com o mesmo prazer.
Então meu pai adoeceu. Nos meses em que ficou hospitalizado com câncer no pulmão, preocupava-me com  a reação de Sam à aparência do avô: as marcas das injeções, os tubos de oxigênio, sua fraqueza. Quando expliquei a Sam que se visse o avô tão doente poderia ficar assustado, ele se espantou.
- Ele nunca poderia me assustar - respondeu.
Mais tarde, vi adultos se aproximando da cama de meu pai no hospital com apreensão, sem saber o que dizer ou fazer. Mas Sam sabia exatamente como agir: com abraços e brincadeiras, como sempre.
- Vai voltar para casa logo? - perguntava.
- Estou me esforçando - respondia papai.
Quando ele faleceu, tudo mudou para mim e Sam. Sem querer enfrentar as perguntas e os sentimentos suscitados pela morte de meu pai , eu reprimia a tristeza arrasadora que sentia.
Quando, bem-intencionadas, as pessoas me perguntavam  como eu estava, dava uma resposta rápida e mudava de assunto.
Mas Sam era diferente. Para ele, pensar em voz alta era o melhor meio de compreender.
- Então - dizia, acomodando-se no assento do carrro - , o Vô está no espação, não é?
Ou, apontado para um vitral da igreja:
- Um daqueles anjos é o Vô?
Logo depois que meu pai morreu, Sam indagou:
- Onde fica o paraíso?
- Ninguém sabe exatamente - respondi. - Muita gente acha que é no céu.
- Não - disse Sam, sacudindo a cabeça. - Fica muito longe. Perto do Camboja.
Em outra ocasião, perguntou:
- Quando a gente morre desaparece, não é? E quando a gente desmaia, desaparece só um pouquinho, certo?
Achava que as perguntas dele eram boas.
O que me incomodava era o que sempre fazia depois: olhava bem dentro de meus olhos, com mais esperança do que eu podia suportar, e aguardava minha aprovação, correção ou sabedoria. Mas, nesse assunto, meu medo e minha ignorância era tais que eu ficava muda perante a inocência dele.
Recordando




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